15/01/2013

APAGA A LUZ QUE EU QUERO DORMIR, PARA ACORDAR CEDO, ENTRAR NA FILA E VOLTAR A DORMIR.


O texto que se segue foi escrito a algum tempo,na verdade são três pequenos escritos que refletem momentos de cansaço que afetavam corpo e a mente. 


Gastamos tanto tempo dizendo: “eu quero isso, não quero aquilo, gosto disto, não gosto daquilo. Faça desse jeito, se não for assim, eu não quero. Só vou sair de casa se o tempo estiver assim e assado. Não gostei do jeito dela. Nossa! Como todo mundo é estranho.” 
Queremos mudar a rotação do planeta terra, porque dessa forma o vento vai ondular nosso cabelo de um modo mais atraente. Queremos que os raios solares estejam na medida certa, adequados ao bronzeamento saudável da nossa pele. Queremos que todas as vontades, individualidades, sonhos e crenças estejam de acordo com os nossos postulados teóricos, e se não tiverem ? Foda-se a realidade. Queremos transformar o mundo,quando sequer sabemos tomar conta dos nossos impulsos inconscientes. Queremos o mundo, mas o nosso mundinho, nem nos deixa respirar com o cheiro putrefato de nossas aspirações egoístas.
Estou dizendo isto, porque hoje não me sinto em condições de expressar nada sobre o mundo, lá fora. Aqui dentro, nesse “eu total” que sou, tudo está fragmentado, espedaçado. E não encontro portas e janelas, não encontro nada que me faça levantar dessa rede. As vezes o nosso mundo interior está uma bagunça. Agora percebo que o meu sempre esteve, mas isso nunca tinha incomodado como agora. Estou totalmente sem parâmetros para agir, nenhuma referência. Quero abandonar meu emprego, me afastar de pessoas,sumir da vista de todos. O trabalho destrói as minhas forças. O meu espírito se torna escravo de coisas insignificantes. E não sei bem se o problema é o trabalho ou o meu mundo espedaçado, que não permite curtir absolutamente nada. Sabe quando a gente pensa que precisa de muito dinheiro, e quando tem esse dinheiro em mãos, é como se fizesse um vazio maior ainda. Eu me sinto assim, com receio desse mundo que a gente sempre precisa está sobrevivendo e ao mesmo tempo, sem saber pra que. Sem saber o que fazer no intervalo entre o trabalho e o sono. Por hoje, eu queria uma máquina fotográfica e um pouco de coragem pra sair pelo mundo, capturando em imagens, todas essas pessoas que vivem suas vidas simples, suas rotinas sem problemas. Eu queria saber como é que elas conseguem enfrentar essa batalha sem fim, que não vai nos levar a lugar algum. 
Quando a vida se torna um teatro a céu aberto, repleto de convenções sufocantes, de não me toques, de mentiras, de hipocrisias sem limite, de batalhas fúteis e que oprimem as individualidades, é difícil atribuir significado, mas mesmo assim penso que é sempre possível. Mas nos últimos dias, pra falar a verdade, tá complicado.
 E ai eu penso, porque viver limitando tanto as possibilidades de ação e de diálogo. Porque preferimos a delimitação dos horizontes perceptivos, com religiões e concepções filosóficas que mais perecem prisões ,com padrões musicais,textuais,com círculos de amizades que sufocam com posturas forçadas para parecermos mais atraentes,mais inteligentes,mais indiferentes,mais sóbrios e menos sensíveis. Mais atentos e menos capazes de ouvir. Provamos de tudo, mas parece que perdemos a capacidade de sentirmos. Se antes a arte servia para intensificar a realidade, hoje ela serve para encobri-la de nossa percepção. Atualmente não conseguimos nos encontrar, esse não é o problema, na verdade não existem problemas, tudo está dado. Andamos numa fila bem lenta,enquanto os carros passam bem rápidos pelo asfalto. O nosso desejo é de estarmos dentro do carro com ar condicionado ligado. Por isso saímos da fila da conta de água e vamos para a fila da loteria, fazer o nosso joguinho. Passamos pela fila do emprego, pela do supermercado chegamos em casa ligamos a TV e assistimos os comerciais,que dizem que o nosso pênis é pequeno,que o nosso cabelo está caindo,que os nossos relacionamentos não estão dando certo,mas que a vida é algo sagrado e que graça a ciência nós podemos aumentar o tamanho de  nosso pau,fazer o cabelo parar de cair,simplesmente pagando apenas cinquenta centavos por dia, pelo resto das nossas vidas.