01/01/2013

OS MEDOS EDIFICAM PRISÕES.


                         



-Sabe de uma coisa?


- O que é?


-Tem gente que passa a vida toda procurando um grande amor.


-Sim e dai?


-É que quando encontra, se conforma. E passa a viver com sono. O amor se torna rotina. E a rotina o cobertor dos corpos. As pessoas não sabem conquistar dia-a-dia o afeto e despertar o desejo do outro a cada novo olhar. O amor em geral sempre se faz tédio.


-Mas é assim mesmo a vida é sempre monótona e desinteressante. Se não fossem as paixões, já teria colocado uma arma ao lado do ouvido e disparado. O amor pode até ser uma ilusão momentânea, mas sem ele a vida perde a justificativa de ser.Um instante de perfeição é tudo que se pode querer.


-É pode ser, mas sempre existe o desejo de prolongar. De ser feliz, de buscar a felicidade,custe o que custar.


-Não, de modo algum. Ninguém busca felicidade. Na verdade felicidade você já tem,quando está no seu quarto sozinho,sonhando com amores, abstraindo sobre grandes ideias,sobre possibilidades da ação. Isso é felicidade. O que acontece é que não suportamos por muito tempo essas projeções, não suportamos a felicidade,que só está presente quando o outro não se encontra próximo. O que queremos na verdade é fugir da felicidade, que se localiza no devaneio da nossa solidão ao imaginarmos o mundo. Para fugir da abstração da ideia de felicidade buscamos os encontros e desencontros. Buscamos algo a mais que a simples felicidade, que já tínhamos quando estávamos sós.


-Interessante o que você diz. Acabo de lembrar da mulher mais linda que tive o prazer de vislumbrar. Olhos azuis, cabelos dourados como o ouro que não se compra;boca levemente delineada,pele clara cobrindo os contornos de um corpo desenhado com ares de perfeição e crueldade,que faz a gente duvidar se tudo se trata realmente de um acidente da matéria. Por essa mulher me apaixonei loucamente. Fiquei desesperado. Ela não poderia fazer aquilo comigo. Ser controlado por um olhar tão inocente que. Não poderia ser possível ser escravo de uma expressão tão doce e suave quanta aquela. Eu não sabia o que fazer, e não fiz. Preferi continuar vivendo, e tentar esquecer aquele fenômeno extraordinário.


- Meu amigo, lamento informar,que não poderia ter tomado uma decisão mais mortal. Você preferiu a vida que a intensidade. O conforto sepulcral que o desconforto que permite sentir.Você ganhou mais alguns anos,porém do que valem os dias,as horas, sem o nosso prazer. Passar a vida olhando para um relógio e torcendo para o dia passar.ninguém merece.


                                           




-De verdade acho que você está certo, que é só isso mesmo que importa. Entretanto os relacionamentos de maior carga afetiva sempre me dão a impressão que o que iremos encontrar é uma cela apertada com as portas abertas em que preferimos ficar lá dentro do que sair para ver o mundo. O amor tem mais de prisão do que de liberdade. E o pior é que a nossa vontade fica escravizada a uma forma de expressão que invés de nos encantar com as possibilidades do viver, restringe ainda mais o nosso horizonte perceptivo.


-Bobeira,as prisões estão em todos os lugares. O problema é quando transformamos essas prisões em justificativas de nossos medos. O pior que lhe pode acontecer é a sua noção abstrata de prisão se tornar mais concreta.