29/03/2013

Livro: Clube da Luta / (Fight Club, 1996). Chuck Palahniuk





Após ler o livro de Palahniuk, O clube da luta, Fiz um pequeno fichamento do mesmo, que de modo algum substitui a leitura do livro . E também não serve de apresentação da trama. São simplesmente, pedaços da violência empenhada na criação de novas formas de socialização, baseadas no encontro com o outro e com sigo mesmo, com a cara limpa ou banhada de sangue. Encontrar-se é antes de mais nada perder-se daquilo que aprendemos a ser,quando assistíamos aos comerciais televisivos, as aulas, os conselhos e os constrangimentos em geral, que acariciavam nossas faces,aparecendo como receitas do viver bem,com conforto e estabilidade, mas que na verdade, eram responsáveis pela implantação de uma paralisia da ação. O livro é uma sequência de socos, desferidos em nossa ilusão de segurança e estabilidade, que é mostrada em toda a sua capacidade de aprisionamento.


Chuck Palahniuk (nascido em Pasco,Washington a 21 de Fevereiro 1961).Se mostra um autor caracterizado pelo uso e repetição de frases curtas plenas de humor irônico e provocador.


"Você compra móveis. E pensa, este é o último sofá que vou comprar na vida. Compra o sofá, e por um par de anos fica satisfeito porque, aconteça o que acontecer, ao menos tem o seu sofá. Depois precisa de um bom aparelho de jantar. Depois de uma cama perfeita. De cortinas. E de tapetes. Então cai prisioneiro de seu adorável ninho, e as coisas que antes lhe pertenciam passam a possuir você." Pag. 19


"Que eu nunca me sinta completo. Que eu nunca me sinta satisfeito.
Que eu nunca seja perfeito. Livre-me, Tyler, de ser completo e perfeito." Pag. 20


"Digo apenas que não quero morrer sem algumas cicatrizes. Não estou mais a fim de um corpo bonito. Sabe aqueles carros super conservados que parecem ter saído direto da vitrine do revendedor em 1955, acho um desperdício." Pag. 21


"Você viu o garoto que trabalha na copiadora, faz um mês que você viu esse garoto que nunca se lembra de anotar um pedido ou separar as cópias, mas esse menino foi bom por dez minutos, quando você o viu desviar-se dos chutes de um representante de contas com o dobro do tamanho dele, e voar para cima do sujeito e socar a cara dele até ele dizer pára. Essa é a terceira regra do clube da luta, se a pessoa diz pára, ou se não consegue mais parar em pé, mesmo que esteja fingindo, a luta termina. Se você visse esse garoto, não imaginaria que tivesse feito uma grande luta." Pag. 22


"No clube da luta ninguém é o mesmo da vida real. Você pode dizer ao garoto da copiadora que ele fez uma boa luta, mas não vai estar falando com a mesma pessoa." Pag. 22


"O primeiro clube da luta éramos apenas Tyler e eu, batendo um no outro. Antes, se eu chegasse em casa nervoso, vendo que a vida não estava de acordo com meus planos, bastava limpar o apartamento ou lustrar o carro. Um dia eu morreria sem nenhuma cicatriz e deixaria um apartamento e um carro muito bons. Muito bons mesmo, até juntar poeira ou mudar de dono. Nada é estático. Até a Mona Lisa está se desintegrando. Desde que o clube da luta começou, tenho metade dos dentes moles na boca."  Pag. 22


"O clube da luta não é futebol pela televisão. Você não está assistindo a um bando de homens que nem se conhecem batendo um no outro ao vivo via satélite com delay dois minutos, comerciais de cerveja a cada dez minutos e uma pausa para a vinheta da estação. Depois de conhecer o clube da luta, assistir a futebol pela televisão é como ver filme de sacanagem quando você poderia estar dando uma boa trepada." Pag. 23

"Você não se sente tão vivo em nenhum outro lugar como no clube da luta. Quando estão só você e o outro cara embaixo da lâmpada e toda aquela gente assistindo. Clube da luta não tem nada que ver com ganhar ou perder lutas. Clube da luta não tem nada que ver com palavras. Quando um cara chega ao clube da luta, a bunda dele é uma massa de pão branco. Vê o mesmo cara seis meses depois, e ele parece esculpido em madeira. Esse cara se sente seguro para fazer qualquer coisa. No clube da luta você ouve barulhos e grunhidos como em qualquer academia, mas ninguém está preocupado em ficar bonito. Há gritos histéricos e línguas estranhas como nas igrejas, mas quando você acorda no domingo à tarde se sente salvo." Pag. 23- 24.


"A culpa foi minha. Às vezes você faz as coisas e acaba se ferrando. Outras, são as coisas que não faz que acabam ferrando você." Pag. 27

"— Sabe, a camisinha é o sapatinho de cristal da nossa geração. Você calça quando conhece uma pessoa. Dança a noite toda e depois joga fora. A camisinha, não a pessoa." Pag. 31


"— Ser despedido é a melhor coisa que nos pode acontecer — diz Tyler. Assim a gente consegue sair do lugar e fazer alguma coisa na vida. " Pag. 41

"Nós subimos ao quarto, e Marla me diz que na selva não se vêem animais velhos porque, assim que começam a envelhecer, eles morrem. Se ficam doente são lentos, vem outro mais forte e os mata. Os animais não envelhecem. Marla deita na cama, solta a tira do roupão e diz que a nossa cultura considera a morte uma coisa errada. Os animais velhos deviam ser uma exceção não natural." Pag.52


"Marla sua frio enquanto vou contando que tive uma verruga quando estava na faculdade. No pênis, continuo, no pau. Fui à faculdade de medicina para removê-la. A verruga. Mais tarde, contei isso ao meu pai. Foi muitos anos depois, e meu pai deu risada e me chamou de trouxa, porque ter uma verruga nesse lugar é um presente da natureza. As mulheres adoram, foi um presente que recebi de Deus." Pag. 52


"O câncer é assim, digo a Marla. Haverá outros erros, talvez o mais importante é não esquecer o resto de você quando uma parte vai mal." Pag. 53

"Para animá-la, para fazê-la rir, contei de uma mulher que escreveu para o Querido Abby dizendo que se casara com um agente funerário muito bonito e bem-sucedido, mas na noite de núpcias foi obrigada a entrar numa banheira com água fria até a pele gelar, depois deitou-se na cama completamente imóvel para que ele tivesse um intercurso sexual com um corpo inerte e gelado. O mais engraçado é que essa mulher fez isso na lua-de-mel e continuou fazendo pelos dez anos que durou o casamento, e escrevia para o Querido Abby perguntando o que significava isso." Pag. 54


"Sua filosofia de vida, ela me disse, é que ela pode morrer a qualquer momento. A tragédia da sua vida é que não morre." Pag. 54

"O coração de Marla estava parecido com o meu rosto. A merda e o lixo do mundo. A bosta humana pós-consumo que ninguém jamais se dará ao trabalho de reciclar." Pag. 55

"Sabe as coisas que Tyler diz sobre ser um merda, um escravo da história? Pois era assim que eu me sentia. Queria destruir tudo de belo que nunca tive. Pôr fogo na floresta Amazônica. Injetar CFCs direto na camada de ozônio. Abrir válvulas de descarga dos super petroleiros e destampar poços de petróleo em alto mar. Queria matar os peixes que não pudesse comer e contaminar as praias francesas que não conheci."


"Queria que o mundo todo chegasse ao fundo. Batendo naquele garoto, o que eu queria, na verdade, era meter uma bala no meio da testa de todos os pandas ameaçados que não trepavam para salvar a espécie e de cada baleia ou golfinho que desistisse de lutar e encalhasse na praia.Não veja isso como extinção. Veja como diminuição da espécie. Por milhares de anos, os seres humanos fodem e sujam e cagam em cima deste planeta, e agora a história quer que eu limpe tudo. Preciso lavar e amassar as latas de sopa. E dar conta de cada gota de óleo dos motores. E ainda tenho de pagar a conta pelo lixo nuclear, pelos depósitos de gasolina queimados e pela lama tóxica despejada por uma geração anterior à minha."


"Apoiei a cabeça do anjinho como se fosse um bebê ou uma bola de futebol na dobra do meu braço e bati nela com os nós dos dedos, bati até sentir os dentes se quebrando. Depois, usei o cotovelo, e ele foi escorregando dos meus braços até cair aos meus pés. Eu queria sentir cheiro de fumaça. Pássaros e cervos são meros luxos e todo peixe deveria voar. Eu queria pôr fogo no Louvre. E limpar a bunda com a Mona Lisa. Este é o meu mundo, agora. Este é o meu mundo, o meu mundo, e os antigos estão mortos." Pag. 63

"Reciclagem e limites de velocidade são uma bobagem — diz Tyler. — É como alguém parar de fumar no leito de morte."Pag.64


"— Você tem uma classe de mulheres e homens jovens e fortes que estão dispostos a dar a vida por alguma coisa. A publicidade persegue essa gente com carros e roupas desnecessários. As gerações vêm trabalhando em empregos que odeiam, comprando o que não têm a menor necessidade.— Nossa geração não viveu uma grande guerra ou uma grande depressão, mas nós sim, nós vivemos uma grande guerra espiritual. Uma grande revolução contra a cultura. A grande depressão é a nossa vida. Nossa depressão é espiritual.— Temos de mostrar a esses homens e a essas mulheres o que é a liberdade escravizando-os, mostrar o que é a coragem amedrontando-os."Pag. 78


"Se manda daqui e vai cuidar dessa sua vidinha, mas não esqueça que estou de olho em você, Raymond Hessel, e prefiro matar você a vê-lo trabalhando num emprego de merda só para ter dinheiro para comprar queijo e assistir a televisão." Pag.81


"— Lembre-se disso — disse Tyler. — As pessoas que você quer pisar são as mesmas das quais você depende. Somos as pessoas que lavam a sua roupa,fazem a sua comida e servem o seu jantar. Nós fazemos a sua cama. Nós cuidamos do seu sono. Dirigimos as ambulâncias. Passamos as suas ligações.Somos cozinheiros, motoristas de táxi e sabemos tudo a seu respeito. Nós processamos os seus pedidos de seguro e as compras no seu cartão de crédito.Controlamos cada parte de sua vida. — Somos os filhos do meio da história e fomos ensinados pela televisão a acreditar que um dia seremos milionários, astros de cinema e do rock, mas é mentira. Só que acabamos de saber disso — disse Tyler. — Por isso, não brinque conosco." Pag. 87


"Tudo o que você mais ama o rejeitará ou morrerá.
Tudo o que você já criou será jogado fora.
Tudo de que você mais se orgulha terminará em lixo." Pag.105.